No artigo anterior, mostrei como a v0.1.0 estabeleceu a fundação do Media Transcriber com estrutura de pacote, pytest, Ruff, mypy, pre-commit e uma pipeline no GitLab.

Ainda não existia uma funcionalidade para o usuário. A aplicação podia ser instalada e validada, mas não recebia um arquivo de mídia.

A v0.2.0 usa essa base para entregar o primeiro fluxo executável do projeto: uma interface de linha de comando capaz de receber um caminho, validar o arquivo e comunicar o resultado por mensagem e código de saída.

media-transcriber caminho/para/video.mp4
        ↓
interpretação dos argumentos
        ↓
validação do caminho e da extensão
        ↓
mensagem + código de saída

É um incremento pequeno. Ainda não há FFmpeg nem transcrição. Justamente por isso, ele oferece um recorte claro para estudar responsabilidades, erros de entrada, testabilidade e o contrato de uma CLI.

O escopo da v0.2.0

O roadmap chama esta milestone de Entrada de Mídia. Seu resultado esperado é que a aplicação consiga receber e validar corretamente um arquivo.

Nesta versão, a CLI verifica:

  • se um caminho foi informado;
  • se o caminho existe;
  • se ele representa um arquivo, e não um diretório;
  • se possui uma das extensões aceitas;
  • se a extensão é reconhecida com letras maiúsculas ou minúsculas.

Os formatos admitidos são:

CategoriaExtensões
Áudio.m4a, .mp3, .wav
Vídeo.mkv, .mp4, .webm

A aceitação da extensão não significa que o conteúdo já tenha sido inspecionado ou processado. Um arquivo vazio chamado exemplo.mp3, por exemplo, passa por esta etapa porque o objetivo da milestone é validar a entrada inicial, não decodificar a mídia.

Ficaram fora de propósito:

  • inspeção do conteúdo do arquivo;
  • detecção por MIME type;
  • integração com FFmpeg;
  • extração de áudio;
  • transcrição;
  • criação de arquivos de saída.

Essa delimitação impede que a primeira funcionalidade tente resolver várias etapas do roadmap ao mesmo tempo.

Registrando um comando instalável

O pyproject.toml declara o ponto de entrada da aplicação:

[project.scripts]
media-transcriber = "media_transcriber.cli:main"

Depois da instalação do pacote, o ambiente cria o comando media-transcriber e direciona sua execução para a função main() do módulo media_transcriber.cli.

O mesmo fluxo também pode ser iniciado como módulo:

python -m media_transcriber caminho/para/audio.mp3

Para isso, o pacote contém um __main__.py pequeno:

from media_transcriber.cli import main

raise SystemExit(main())

As duas formas chegam à mesma função. Não há uma implementação para o comando instalado e outra para python -m; existe um único ponto de entrada reutilizado por ambas.

O SystemExit transforma o inteiro devolvido por main() no código observado pelo processo que chamou a aplicação.

Interpretando argumentos com a biblioteca padrão

A CLI usa argparse, disponível na biblioteca padrão do Python:

def build_parser() -> argparse.ArgumentParser:
    parser = argparse.ArgumentParser(
        prog="media-transcriber",
        description="Valida um arquivo de áudio ou vídeo para transcrição.",
    )
    parser.add_argument(
        "media_file",
        type=Path,
        help="caminho do arquivo de mídia",
    )
    return parser

O argumento media_file é posicional e obrigatório. Definir type=Path faz com que a camada de CLI entregue um objeto pathlib.Path à aplicação, em vez de manter o caminho como uma string sem semântica específica.

O próprio argparse fornece a ajuda:

$ media-transcriber --help
usage: media-transcriber [-h] media_file

Valida um arquivo de áudio ou vídeo para transcrição.

positional arguments:
  media_file  caminho do arquivo de mídia

options:
  -h, --help  show this help message and exit

Ele também trata a ausência do argumento obrigatório. Nesse caso, imprime o uso em stderr e encerra com código 2 antes que a validação de mídia seja chamada.

Para esta interface pequena, usar a biblioteca padrão evita introduzir uma dependência externa antes de existir uma necessidade concreta de grupos de comandos, subcomandos ou recursos adicionais.

Separando a interface da validação

Seria possível verificar o arquivo dentro da própria função main(). A implementação separa as responsabilidades em dois módulos:

cli.py
├── interpreta argumentos
├── chama a validação
└── traduz o resultado para terminal e código de saída

media.py
├── conhece as extensões aceitas
├── verifica o caminho
└── devolve o Path absoluto ou lança um erro de validação

A função principal fica assim:

def main(argv: Sequence[str] | None = None) -> int:
    args = build_parser().parse_args(argv)

    try:
        media_path = validate_media_file(args.media_file)
    except MediaValidationError as error:
        print(f"Erro: {error}", file=sys.stderr)
        return 2

    print(f"Arquivo de mídia válido: {media_path}")
    return 0

O parâmetro argv merece atenção. Quando recebe None, o argparse usa os argumentos reais do processo. Nos testes, é possível passar uma sequência explícita:

main(["caminho/para/arquivo.mp3"])

Isso permite testar a função sem alterar globalmente sys.argv e sem iniciar um subprocesso para cada cenário.

A CLI ainda tem uma responsabilidade importante: converter uma exceção da aplicação em uma mensagem apropriada para o terminal e em um código de saída previsível.

Uma exceção específica para entradas inválidas

O módulo de mídia define um erro próprio:

class MediaValidationError(ValueError):
    """Raised when an input path is not a supported media file."""

Essa exceção diferencia falhas esperadas de entrada de outros erros de programação ou de infraestrutura.

A função main() captura apenas MediaValidationError. Ela não usa um except Exception genérico que poderia esconder defeitos inesperados e apresentá-los como se fossem apenas um arquivo inválido.

Esse contrato também desacopla o núcleo de validação da saída no terminal. validate_media_file() não imprime mensagens nem decide o código do processo; ela devolve um caminho válido ou informa por exceção por que a validação falhou.

Validando o caminho em etapas

As extensões suportadas ficam em um conjunto imutável:

SUPPORTED_EXTENSIONS = frozenset(
    {".m4a", ".mkv", ".mp3", ".mp4", ".wav", ".webm"}
)

O uso de frozenset expressa que a coleção é uma configuração fixa desta versão. Para a verificação de pertencimento, a ordem das extensões não é relevante.

A validação começa aceitando uma string ou um Path:

def validate_media_file(path: str | Path) -> Path:
    media_path = Path(path).expanduser()

expanduser() permite interpretar caminhos iniciados com ~ conforme o diretório pessoal do usuário. Depois, três condições são avaliadas.

O caminho precisa existir

if not media_path.exists():
    raise MediaValidationError(
        f"Arquivo não encontrado: {media_path}"
    )

Uma extensão válida não torna um caminho inexistente aceitável. Essa verificação ocorre antes da análise do sufixo para produzir um diagnóstico coerente com a causa mais imediata.

O caminho precisa ser um arquivo

if not media_path.is_file():
    raise MediaValidationError(
        f"O caminho informado não é um arquivo: {media_path}"
    )

Um diretório chamado videos.mp4 ainda é um diretório. Conferir somente o nome ou a extensão deixaria esse caso passar.

A extensão precisa ser suportada

extension = media_path.suffix.lower()

if extension not in SUPPORTED_EXTENSIONS:
    supported = ", ".join(sorted(SUPPORTED_EXTENSIONS))
    extension_label = extension or "sem extensão"
    raise MediaValidationError(
        f"Formato não suportado ({extension_label}). "
        f"Formatos aceitos: {supported}"
    )

Converter o sufixo para minúsculas permite aceitar tanto video.mp4 quanto video.MP4. Quando não existe sufixo, a mensagem usa “sem extensão” em vez de exibir um valor vazio.

Se todas as verificações passam, a função devolve o caminho absoluto:

return media_path.resolve()

Isso oferece à próxima etapa da aplicação uma referência normalizada para o arquivo, sem depender do diretório em que o comando foi chamado posteriormente.

Saída padrão, saída de erro e códigos de processo

Uma CLI não se comunica apenas pelo texto que uma pessoa lê. Scripts, pipelines e outras ferramentas também observam seus streams e códigos de saída.

O contrato desta versão é:

SituaçãoStreamCódigo
Arquivo aceitostdout0
Arquivo rejeitado pela validaçãostderr2
Argumento obrigatório ausentestderr, pelo argparse2

Exemplo de sucesso:

$ media-transcriber samples/reuniao.mp3
Arquivo de mídia válido: /caminho/absoluto/samples/reuniao.mp3
$ echo $?
0

Exemplo de falha:

$ media-transcriber samples/anotacoes.txt
Erro: Formato não suportado (.txt). Formatos aceitos: .m4a, .mkv, .mp3, .mp4, .wav, .webm
$ echo $?
2

Separar stdout e stderr permite redirecionar o resultado normal sem misturá-lo aos diagnósticos. O código diferente de zero permite que uma automação interrompa o fluxo sem precisar interpretar a frase exibida.

O código 2 é usado tanto pelo argparse para uso incorreto quanto pela validação para entrada recusada. Em uma CLI maior, talvez faça sentido distinguir mais categorias. Para o contrato pequeno desta milestone, os testes registram explicitamente a decisão atual.

Testando a validação sem depender de arquivos reais de mídia

Os testes usam a fixture tmp_path do pytest. Cada cenário recebe um diretório temporário isolado e pode criar apenas os caminhos necessários.

O caso parametrizado percorre todas as extensões suportadas:

@pytest.mark.parametrize("extension", sorted(SUPPORTED_EXTENSIONS))
def test_accepts_supported_media_files(
    tmp_path: Path,
    extension: str,
) -> None:
    media_file = tmp_path / f"sample{extension}"
    media_file.touch()

    assert validate_media_file(media_file) == media_file.resolve()

O teste não precisa manter arquivos binários de áudio e vídeo no repositório porque essa versão não inspeciona seus conteúdos. Criar arquivos vazios é coerente com a regra efetivamente implementada.

Outros cenários verificam:

  • extensão em letras maiúsculas;
  • arquivo inexistente;
  • diretório no lugar de arquivo;
  • extensão não suportada;
  • arquivo sem extensão.

Cada teste observa o comportamento público da função, incluindo a mensagem relevante da exceção.

Testando a CLI como função

Os testes da interface chamam main() com argumentos explícitos e usam capsys para capturar stdout e stderr.

No caminho de sucesso:

def test_cli_accepts_valid_media_file(
    tmp_path: Path,
    capsys: pytest.CaptureFixture[str],
) -> None:
    media_file = tmp_path / "sample.mp3"
    media_file.touch()

    exit_code = main([str(media_file)])

    captured = capsys.readouterr()
    assert exit_code == 0
    assert str(media_file.resolve()) in captured.out
    assert captured.err == ""

O teste não verifica apenas o inteiro devolvido. Ele confirma que a mensagem foi para o stream correto e contém o caminho absoluto esperado.

Para um arquivo inexistente, o contrato muda:

exit_code = main([str(tmp_path / "missing.mp4")])

captured = capsys.readouterr()
assert exit_code == 2
assert "Arquivo não encontrado" in captured.err
assert captured.out == ""

O caso sem argumentos é diferente porque o argparse lança SystemExit. O teste captura essa saída, verifica o código 2 e procura o uso do comando em stderr.

Essa diferença documenta qual camada encerra cada cenário: a aplicação devolve um código para erros de validação; o parser controla erros na própria sintaxe da linha de comando.

Reaproveitando a fundação da versão anterior

A funcionalidade entrou no mesmo fluxo de qualidade estabelecido na v0.1.0:

ruff check .
ruff format --check .
mypy
pytest

Na reprodução da tag v0.2.0, os resultados foram:

  • Ruff: nenhuma ocorrência;
  • formatação: 11 arquivos já formatados;
  • mypy em modo estrito: nenhuma inconsistência em oito arquivos;
  • pytest: 15 testes aprovados;
  • cobertura total: 95%;
  • cli.py: 100% de cobertura;
  • media.py: 100% de cobertura.

Os dois pontos não cobertos estão em __main__.py. Os testes chamam main() diretamente, portanto validam o comportamento da CLI sem executar o módulo como um novo processo.

Essa é uma limitação conhecida da cobertura atual. Um teste de subprocesso poderia exercer python -m media_transcriber e o comando instalado, verificando a integração do entry point de ponta a ponta. Para o recorte desta milestone, o pacote, o registro do script e a função principal permanecem separados e pequenos.

O que este incremento ensina

A primeira funcionalidade do Media Transcriber não exigiu uma arquitetura sofisticada. Ainda assim, algumas decisões tornam sua evolução mais segura:

  • o entry point é declarado pelo pacote;
  • as duas formas de execução reutilizam a mesma função;
  • a interpretação de argumentos fica separada da regra de validação;
  • uma exceção específica representa entradas rejeitadas;
  • erros esperados não escondem exceções inesperadas;
  • streams e códigos de saída formam um contrato observável;
  • arquivos temporários tornam os testes isolados e reproduzíveis;
  • a tipagem cobre tanto o código quanto os testes.

Essas escolhas são pequenas porque o problema ainda é pequeno. Elas não antecipam filas, adaptadores, casos de uso ou camadas que somente aparecerão nas próximas etapas.

O limite entre validar o nome e validar a mídia

A v0.2.0 identifica candidatos a arquivo de mídia. Ela não garante que o conteúdo corresponda à extensão.

Esse limite precisa permanecer explícito. Renomear documento.txt para documento.mp3 é suficiente para passar pela regra atual, desde que o caminho exista e seja um arquivo.

Na próxima milestone, a integração com FFmpeg introduzirá uma verificação mais próxima do conteúdo real e novos tipos de falha:

  • executável indisponível;
  • formato inválido ou corrompido;
  • arquivo sem stream de áudio;
  • erro durante a extração;
  • gerenciamento do arquivo intermediário.

Quando essas necessidades entrarem, a separação atual oferece um ponto de partida: a CLI recebe a entrada, a validação inicial prepara um Path e a integração externa pode evoluir sem concentrar todas as decisões em main().

Conclusão

A v0.2.0 transforma o Media Transcriber de um pacote com infraestrutura de qualidade em uma aplicação que já pode ser chamada pelo usuário.

Ela ainda não transcreve. Seu primeiro contrato é mais fundamental:

entrada válida   → mensagem em stdout → código 0
entrada inválida → mensagem em stderr → código 2

O valor deste incremento não está somente nas poucas linhas da CLI. Está na combinação entre um escopo explícito, responsabilidades pequenas e testes que observam o comportamento externo.

A fundação criada anteriormente permitiu que a funcionalidade entrasse acompanhada de linting, formatação, tipos, testes e cobertura. Agora, o projeto possui uma entrada estável para avançar ao próximo problema real: integrar o FFmpeg de forma testável e transformar vídeo em áudio preparado para transcrição.

Referências